Ensaios

Um espaço para reflexão

Quando a recíproca não é verdadeira

with one comment

Regina Teixeira da Costa

Se a recíproca é sempre verdadeira no campo das ciências
exatas, o mesmo não ocorre nos relacionamentos afetivos. Aqui, a lógica é
outra. E não é simplesmente por capricho que tanta gente reclama. Sempre que se
faz o bem a alguém e se espera a reciprocidade, isto é, se faz um favor a uma
pessoa, tem-se um gesto de solidariedade, de doação, e se espera que o outro
retribua na mesma moeda. Na maioria das vezes, o que se tem como resposta é a
frustração.

Isso prova que nem sempre se faz o bem sem olhar a quem. Da
mesma forma, nem sempre se faz o bem desinteressadamente. Os bonzinhos são
aqueles que pela bela alma esperam seduzir, manter dependências, dominar os
mais dóceis, os mais acovardados, os fracos. Enfim, os bonzinhos esperam ser
amados por sua bondade. Quando não recebem tal resposta, apontam sua
superioridade contra aquele que não alcança sua alta disponibilidade. É chavão:
depois de tudo que fiz, é assim que sou paga…

Então, no terreno amoroso, as areias são movediças. Abrir
mão do desejo pelo outro é tônica comum em nome da harmonia conjugal. Ocorre
que, na maioria das vezes, essa atitude é unilateral. Um faz; outro não. Daí a
confusão está armada. Não são poucos os que vêm ao consultório para dizer das
boas ações feitas em nome do amor e da ingratidão como paga.

Fazer o bem é relativo. Algumas vezes, fazer o bem é
contrariar, porque concordar o tempo todo com o outro é manter as diferenças
debaixo do pano, fingir que é possível ter o mesmo desejo que o outro. Nunca
houve ou haverá duas pessoas com os mesmos desejos todo o tempo. Desculpem-me
os românticos de carteirinha, mas quem assim se apresenta mostra apenas uma
maquiagem.

Amar, talvez, seja administrar diferenças, suportar o
sintoma do outro, o incômodo do comportamento do outro, a fenda entre duas
pessoas diferentes. O muro do amor, o “amuro”, como disse Lacan, talvez tenha
um tom irônico, porém é real. Entre um sujeito e outro, um homem e uma mulher,
existem diferenças irredutíveis. Conseguir amar apesar disso deve ser prova de
amor maior do que se anular pretendendo forçar a falsa harmonia. O resultado é,
inevitavelmente, sair ressentido e queixoso por se sacrificar por alguém que
não pode corresponder da mesma forma. E não pode mesmo! Mesmo se quisesse, não
poderia, por não ser idêntico. Em nome do amor, exigir o outro igual é anular o
outro e fazer dele apenas o próprio reflexo. Só que o outro é outro, a palavra
já diz. Mascarar isso é precipitar derrocada nas relações.

As pessoas costumam ser carentes em relação ao amor,
principalmente os muito amados na infância. Já disse nosso mestre Freud: é
dever dos pais ensinar os filhos amar e se tornarem adultos fortes e capazes.
Ele também disse que o excesso de afeição dos pais é nocivo por tornar a
criança mimada incapaz de futuramente se contentar com quantidade menor de
amor. Abre-se aí nesse excesso um buraco sem fundo.

É como se o amor fosse vício, sem o qual entramos em
abstinência. Ficamos neuróticos por uma exigência insaciável de afeição
recebida dos pais. Pior: jamais alguém poderá suprir tamanha demanda de amor.

Podemos dizer que o amor em excesso é como droga pesada, que
vicia e causa fissura. A dose deve ser sempre seguida de outra. Interromper
esse ritual é entrar em sofrimento insuportável. Sei que contrario os amantes
do amor, sei que o amor é o perfume da vida e muito importante. Sem ele, não
sobreviveríamos, mas não o idealizemos. O ar que respiramos é muito mais vital
e ninguém o homenageia tanto. Pessoas jogam fora a vida por não se sentirem
amadas…

Não é a toa que alguns crimes são cometidos em nome do amor
não mais correspondido, que se torna o avesso do sentimento, o oceano de mágoas
cantado por Caetano Veloso. O amor se torna ódio, que é o contrário espelhado
do amor. O verdadeiro final do amor é a indiferença. Pelo ódio continuamos
presos a quem antes amamos, é o antigo amor desiludido clamando vingança. Se o
amado não é mais meu… que morra, pois já de nada me serve.

Pode não ser bom saber que somos díspares, mas é mais
produtivo. Durante a vida, talvez tenhamos encontros maravilhosos e até
companheiros por longo período. Mesmo assim, não aceitar a alteridade é ter ao
lado um parceiro que abre mão de si e se submete. Deste modo, você não pode
saber de fato quem está a seu lado.

Publicado originalmente no jornal Estado de Minas. Fonte: UAI

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Written by Bacelar Diniz

31/01/2010 at 23:29

Publicado em Psicanálise

Uma resposta

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  1. Caramba! Texto profundo. Foi o melhor que ela já escreveu.

    Ulysses

    05/02/2010 at 17:35


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